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Santa Paulina: a imigrante italiana que fundou uma congregação em Santa Catarina e se tornou a primeira santa do Brasil

Foto: Madre Paulina

Nascida no Trentino e criada em Nova Trento, Amábile Lúcia Visintainer fundou uma congregação aos 24 anos, enfrentou afastamento e doença e foi canonizada em 2002; no dia 18, a beatificação completa 35 anos

Por Joanna Rita
11 de outubro de 2026

NOVA TRENTO (SC) – Na próxima semana, Santa Catarina lembra uma data cara à fé e à história do estado. No dia 18 de outubro, completam-se 35 anos da beatificação de Madre Paulina, proclamada pelo Papa João Paulo II em 1991, durante visita a Florianópolis. Onze anos depois, em 2002, ela se tornaria Santa Paulina, a primeira santa do Brasil. A trajetória da mulher que mobiliza peregrinos de todo o país começou numa aldeia italiana e passou por um casebre de madeira no interior catarinense.

De Vigolo Vattaro a Vígolo

Amábile Lúcia Visintainer nasceu em 16 de dezembro de 1865 em Vigolo Vattaro, vilarejo do norte da Itália, no seio de uma família camponesa e católica. Em 1875, aos 9 anos, atravessou o Atlântico com os pais e os irmãos, num movimento comum a milhares de famílias italianas que deixavam a Europa em busca de melhores condições de vida.

A família se estabeleceu em Santa Catarina, na região do Vale do Tijucas, onde fundou o povoado de Vígolo, no atual município de Nova Trento. O nome lembra a terra deixada para trás e permanece até hoje: é no bairro Vígolo que fica o santuário que leva o nome da santa.

Por ter nascido na Itália, Paulina é considerada a primeira santa brasileira por ter feito do Brasil sua casa e sua missão, e não por ter nascido aqui.

O gesto que fundou uma congregação

Desde jovem, Amábile mostrava inclinação para a vida comunitária, a oração e o auxílio aos doentes e necessitados. Esse caminho ganhou forma em 12 de julho de 1890. Ao lado da amiga Virgínia Nicolodi, ela acolheu, em um pequeno casebre de madeira, uma mulher em estágio terminal de câncer que não tinha quem cuidasse dela.

O gesto de caridade marcou a fundação da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, apontada como a primeira congregação religiosa feminina criada em solo brasileiro. Em 1895, ao professar os votos religiosos, Amábile assumiu o nome de Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Mais tarde, ao se tornar a primeira Superiora Geral da congregação, passou a ser conhecida como Madre Paulina.

Do Vale do Tijucas ao Ipiranga

Com o crescimento da obra, Madre Paulina se transferiu para São Paulo em 1903 e se estabeleceu no bairro do Ipiranga. Na capital paulista, dedicou-se ao amparo de idosos que haviam sido escravizados, de crianças órfãs e de doentes desamparados, o público que marcou o trabalho social da congregação.

O período de provação

A trajetória de Madre Paulina não foi feita só de reconhecimento. Em 1909, após desentendimentos e calúnias internas e eclesiásticas, ela foi afastada da liderança da congregação que havia fundado. Aceitou a decisão com obediência e resignação e foi enviada para trabalhar de forma simples na Casa de Bragança Paulista, onde permaneceu por nove anos.

Em 1918, foi chamada de volta à Casa Geral, em São Paulo. Viveu ali o resto da vida, dedicada à oração e a pequenos serviços.

Os últimos anos

Nos anos finais, Madre Paulina enfrentou graves sofrimentos físicos, em razão de complicações do diabetes. Passou por duas amputações, entre elas a do braço direito, em 1938, e perdeu totalmente a visão. Morreu serenamente em 9 de julho de 1942, aos 76 anos, em São Paulo.

A reputação de santidade e os relatos de graças atribuídas à sua intercessão cresceram rapidamente depois da morte, e abriram o caminho para o processo que a levaria aos altares.

Beatificação em Florianópolis, canonização no Vaticano

O reconhecimento oficial veio em duas etapas, ambas com o Papa João Paulo II e ambas ligadas a curas consideradas milagrosas pela Igreja.

EtapaDataDetalhes
Beatificação18 de outubro de 1991Proclamada em Florianópolis, durante a visita do papa a Santa Catarina, após o reconhecimento da cura de uma hemorragia interna em Imbituba (SC).
Canonização19 de maio de 2002Proclamada no Vaticano, após a comprovação da cura de uma menina catarinense com malformação cerebral grave.

Com a canonização, Paulina se tornou oficialmente a primeira santa do Brasil. Sua festa litúrgica é celebrada em 9 de julho, dia de sua morte.

Uma mensagem que atravessa gerações

Entre as frases atribuídas a Santa Paulina, uma ficou como resumo de sua vida: “Nunca, jamais desanimeis, embora venham ventos contrários.” A mensagem dialoga com uma trajetória de imigração, trabalho, calúnia, doença e perseverança.

O legado em Nova Trento

Hoje, a memória da santa move o turismo religioso de Nova Trento. O Santuário Santa Paulina, no bairro Vígolo, recebe dezenas de milhares de peregrinos todos os meses, e o complexo inclui capelas, uma réplica da casa histórica, a Praça Santa Paulina, a Sala das Graças, espaço de ex-votos e agradecimentos, e o Mirante Madre Paulina, com vista para o vale.

A imigrante que deixou o Trentino aos 9 anos tornou-se, mais de um século depois, um dos maiores símbolos de fé de Santa Catarina e do país. E o povoado que sua família fundou, com o mesmo nome da aldeia italiana, segue como ponto de encontro entre devoção, história e cultura da imigração.

Com informações do Santuário Santa Paulina, da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição (CIIC), dos arquivos do Vaticano e da Congregação para as Causas dos Santos e de registros históricos da imigração italiana em Santa Catarina.

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