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O rei que nunca viu o Brasil e desenhou Santa Catarina: 337 anos do nascimento de Dom João V

Foto: Divulgação

Nascido em 22 de outubro de 1689, o monarca de Portugal criou a Capitania de Santa Catarina, ordenou a defesa da Ilha e abriu caminho para a chegada dos açorianos que moldaram o litoral catarinense

Por Joanna Rita
22 de outubro de 2026

FLORIANÓPOLIS (SC) – Ele nunca atravessou o Atlântico, mas decidiu o destino de uma ilha que, do outro lado do oceano, ele talvez nunca tenha visto em um mapa com nitidez. Dom João V, o rei de Portugal conhecido como “O Magnânimo”, nasceu há 337 anos, em 22 de outubro de 1689. Foi durante o seu reinado, e por decisões tomadas em Lisboa, que o litoral de Santa Catarina deixou de ser uma faixa de passagem e passou a ser um território defendido, administrado e povoado.

O rei do ouro

Dom João V governou Portugal por mais de quatro décadas e ficou conhecido pelo fausto de sua corte. Parte da riqueza que financiou obras monumentais, como o convento-palácio de Mafra e a Biblioteca Joanina, em Coimbra, vinha do ouro extraído das minas do Brasil. Mas o ouro e as grandes obras são só uma face do reinado. A outra, menos lembrada, está no extremo sul da colônia.

1738: nasce a Capitania de Santa Catarina

Na primeira metade do século XVIII, o litoral catarinense tinha pouca estrutura. O que dava importância à Ilha de Santa Catarina era a geopolítica: Portugal e Espanha disputavam o domínio do Sul, na região do Rio da Prata, e a Ilha servia como ponto de apoio para navios e operações militares.

Foi nesse contexto que, em 1738, o governo português criou a Capitania de Santa Catarina, subordinada ao governo do Rio de Janeiro. O primeiro governador foi o brigadeiro e engenheiro militar José da Silva Paes, designado para o cargo em agosto daquele ano.

Uma fortaleza pedida, três construídas

A missão de Silva Paes era garantir a defesa da Ilha. A Coroa lhe havia pedido, segundo pesquisas da UFSC, apenas uma fortificação. Ele projetou três para guardar a entrada da Baía Norte, formando uma espécie de triângulo de fogo cruzado:

  • Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, na ilha de mesmo nome, em Governador Celso Ramos, cuja construção começou em 1739;
  • Fortaleza de São José da Ponta Grossa, na Ilha de Santa Catarina, entre Jurerê e a Praia do Forte, iniciada em 1740;
  • Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, na Ilha de Ratones Grande, também iniciada em 1740.

O conjunto foi completado por uma quarta fortificação, na Barra Sul, a de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, cujas obras começaram em 1742. Todas são hoje patrimônio histórico nacional e fazem parte do roteiro de turismo e cultura da Grande Florianópolis.

O edital de 1746 e o Dia de Reis de 1748

Fortalezas protegem, mas não povoam. Para garantir a posse da terra, Dom João V apostou em gente. Em 31 de agosto de 1746, o rei determinou a colonização do sul do Brasil com moradores do arquipélago dos Açores. Os “casais d’El Rey”, como ficaram conhecidos, receberiam terras, ferramentas, alimentação e ajuda financeira em troca de contribuir com a guarda e a defesa do território.

O primeiro grupo chegou a Desterro, hoje Florianópolis, em 6 de janeiro de 1748, no Dia de Reis. Em carta de 24 de fevereiro daquele ano ao rei, Silva Paes relatou que 161 pessoas, vindas da Ilha Terceira e de ilhas vizinhas, haviam sido acomodadas em casas na vila e em terras distribuídas aos recém-chegados. Muitos foram assentados na própria vila, em uma rua que passou a ser chamada “dos ilhéus”.

Antes mesmo da chegada, o rei já se preocupava com o desenho da vila. Em uma provisão real de 9 de agosto de 1747, orientou a organização de núcleos de povoamento dentro de um modelo planejado.

A herança que ficou

Dom João V morreu em 31 de julho de 1750, em Lisboa, poucos anos depois da chegada dos primeiros casais. As levas de açorianos e madeirenses continuaram a desembarcar nos anos seguintes, sob o reinado de seu sucessor, Dom José I, e muitos seguiram depois para o Rio Grande do Sul.

O que ficou dessa política está espalhado pelo litoral catarinense: na arquitetura dos antigos povoados da Ilha, no sotaque, na gastronomia, nas festas religiosas e em tradições como o Boi de Mamão e a renda de bilro. São marcas de uma ocupação planejada a milhares de quilômetros de distância, por um rei que nunca pisou no Brasil.

Linha do tempo

AnoFato
22 de outubro de 1689Nasce Dom João V
1738Criação da Capitania de Santa Catarina; Silva Paes é designado governador
1739 e 1740Início da construção das fortalezas de Anhatomirim, Ponta Grossa e Ratones
31 de agosto de 1746Edital de Dom João V para povoar o Sul com casais dos Açores
6 de janeiro de 1748Chegada dos primeiros açorianos a Desterro
31 de julho de 1750Morte de Dom João V

Com informações do Projeto Fortalezas da UFSC, do Portal da Acorianidade (Governo dos Açores) e de pesquisas históricas publicadas por universidades brasileiras.

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