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Um mesmo 12 de outubro: o dia em que Dom Pedro I nasceu e o filho, Dom Pedro II, desembarcou pela primeira vez em Santa Catarina

Foto: Divulgação

Há 228 anos nascia o primeiro imperador do Brasil; 47 anos depois, o filho chegava a Desterro com a imperatriz e foi recebido com festa, Te Deum e até um jornal criado só para contar a visita

Por Joanna Rita
12 de outubro de 2026

FLORIANÓPOLIS (SC) – O 12 de outubro é, para milhões de brasileiros, o dia de Nossa Senhora Aparecida e das crianças. Na história de Santa Catarina, a data guarda também um encontro raro entre pai e filho, separados por décadas e ligados pelo mesmo calendário e pelo mesmo chão.

Em 12 de outubro de 1798, no Palácio Real de Queluz, em Portugal, nascia Dom Pedro de Alcântara, que viria a proclamar a Independência do Brasil e a se tornar seu primeiro imperador. Em 12 de outubro de 1845, no dia em que o pai completaria 47 anos, o filho, Dom Pedro II, então com 19 anos, pisava pela primeira vez em solo catarinense.

O pai que passou com pressa e com o coração dividido

Dom Pedro I conheceu o litoral catarinense num dos períodos mais difíceis de seu reinado. No fim de 1826, em plena Guerra da Cisplatina, o imperador seguiu para o Sul do país para acompanhar de perto o conflito. Relatos históricos apontam que ele atravessou o litoral de Santa Catarina rumo à fronteira com o Rio Grande do Sul, numa viagem de jornadas duras, longe do conforto da Corte.

Não era uma visita de festa. Era uma viagem de guerra, e ela terminou em luto. Ainda em dezembro daquele ano, enquanto o imperador estava no Sul, morreu no Rio de Janeiro a imperatriz Leopoldina. Registros da Prefeitura de Torres, no Rio Grande do Sul, lembram que Dom Pedro I recebeu a notícia da morte da esposa quando já retornava à Corte, depois de passar pela região.

Santa Catarina viu, assim, um jovem imperador de 28 anos cruzar suas terras sem a pompa dos palácios, a caminho de uma guerra que seria perdida e de uma dor que só ele podia medir.

O filho que chegou para ser visto

Dezenove anos depois, a história voltou à mesma terra, desta vez em clima de celebração. Em 12 de outubro de 1845, Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina desembarcaram em Desterro, a atual Florianópolis. Era a primeira vez, em todo o seu reinado, que o monarca visitava Santa Catarina.

O objetivo era aproximar o Império das províncias, e a recepção estava à altura da ocasião. A cidade se preparou para receber o casal, e os historiadores consideram a visita o acontecimento mais importante da primeira metade do século XIX na Ilha de Santa Catarina. Um jornal, O Relator Catharinense, foi criado especialmente para acompanhar e divulgar cada passo da comitiva imperial.

Na Matriz de Desterro, foi executado um solene Te Deum, com música do compositor desterrense João Francisco de Souza Coutinho, cantado por um coro de funcionários públicos e oficiais da Guarda Nacional. Pesquisadores levantam a hipótese de que a obra tenha sido composta justamente para a ocasião.

O imperador não ficou apenas nos salões. Conheceu a Ilha, caminhou pelas ruas do centro ao lado da imperatriz e dos moradores, e a passagem deixou marcas em outras cidades. Em São José, foi recebido em um sobrado que hoje abriga o Museu Histórico Municipal Gilberto Gerlach, onde ainda se guardam peças e documentos daquele ano.

As águas de Caldas e uma curiosidade que atravessou séculos

No fim de outubro, nos dias 29 e 30, o casal imperial visitou as Caldas da Imperatriz, em Santo Amaro da Imperatriz, e pernoitou no local, onde conheceu as fontes termais. A visita coincidiu com a inauguração do hospital de águas termais, e as majestades foram recebidas com procissão, foguetes, banquetes e cerimônia na igreja.

O nome da cidade, porém, não nasceu da visita. Segundo registros da prefeitura, a imperatriz já havia se tornado, em 1844, protetora do hospital de Caldas do Cubatão e feito uma generosa doação para as obras.

Há ainda uma curiosidade que a tradição local faz questão de lembrar: nove meses depois da passagem do casal por ali, nasceu a princesa Isabel, a futura herdeira do trono que, anos mais tarde, assinaria a Lei Áurea.

Duas viagens, uma mesma terra

De um lado, um imperador de 28 anos, atravessando o litoral em tempos de guerra, com a morte da esposa a esperá-lo no caminho de volta. Do outro, o filho de 19, recém-casado, recebido com música sacra, ruas enfeitadas e um povo ansioso por ver de perto o monarca.

Pai e filho passaram por Santa Catarina em momentos opostos da vida, e a data que une os dois, o 12 de outubro, ajuda a lembrar que a história do estado também se escreve nesses encontros improváveis. Hoje, entre o Dia de Nossa Senhora Aparecida e o das crianças, vale lembrar que, há 181 anos, um jovem imperador desembarcava em Desterro no mesmo dia em que o pai, já falecido, teria feito aniversário.


Com informações do NSC Total, da Revista Santa Catarina em História (UFSC), da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, da Prefeitura de Torres (RS) e do Museu Histórico Municipal Gilberto Gerlach (São José).

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