Foto: Ilustrativa
Antes dos primeiros moinhos, dos casarões coloniais e da consolidação do complexo portuário que hoje projeta Itajaí para o mundo, as terras situadas na foz do Rio Itajaí-Açú abrigavam uma rica rede de povoamentos humanos. A história do município, frequentemente narrada a partir da chegada dos colonizadores europeus no século XIX, possui raízes incomparavelmente mais profundas, fincadas pelas populações originárias que povoavam a região há milhares de anos.
Os Primeiros Habitantes: Os Povos dos Sambaquis
As evidências mais antigas da presença humana na região de Itajaí vêm dos povos sambaquianos. A designação “sambaqui” origina-se do tupi (tamba = concha, ki = amontoado) e refere-se às imponentes formações compostas por conchas, moluscos, ossos de animais e vestígios de fogueiras acumulados ao longo de gerações.
Estudos arqueológicos na bacia do Rio Itajaí demonstram que esses grupos de caçadores e coletores colecionavam conhecimentos profundos sobre a dinâmica das marés e a fauna marinha. Os sambaquis não serviam apenas como locais de descarte de alimentos, mas também como áreas de assentamento, ritualística e sepultamento de seus mortos, sinalizando uma ocupação territorial fixa e continuada ao longo do litoral catarinense muito antes do início do primeiro milênio.
Tupinambás, Carijós e Xokleng: A Diversidade Étnica Regional
À medida que o tempo avançava, a dinâmica populacional na costa catarinense transformou-se. Com as migrações continentais, grupos do tronco linguístico Tupi-Guarani, conhecidos regionalmente como Carijós, passaram a dominar a faixa litorânea.
Os Carijós eram agricultores habilidosos e navegadores experientes. Viviam em aldeias organizadas e utilizavam os rios da região — inclusive o próprio Rio Itajaí-Açú, cujo nome de origem tupi faz referência às “águas do rio grande” ou “pedras que brotam da água” — como principais vias de transporte, pesca e comunicação entre o litoral e o interior.
Paralelamente, em áreas mais afastadas da orla e nos vales que sobem em direção à Serra do Mar, habitavam os grupos do tronco linguístico Macro-Jê, representados principalmente pelos Xokleng (também chamados historicamente de Laklãnõ) e os Kaingang. Enquanto os Carijós ocupavam preferencialmente as enseadas e restingas, os povos Jê transitavam pelas matas de araucária e matas ciliares, estabelecendo uma relação distinta com o ecossistema regional.
O Impacto do Contato e o Apagamento Histórico
A chegada dos navegadores europeus a partir do século XVI alterou drasticamente a estrutura demográfica local. Inicialmente, o litoral de Santa Catarina serviu como ponto de reabastecimento para expedições espanholas e portuguesas. Contudo, o contato gradativamente transformou-se em dominação e aprisionamento.
Durante o período colonial, a população Carijó foi brutalmente reduzida devido à introdução de enfermidades europeias para as quais os indígenas não possuíam imunidade, além da intensa prática do apresamento indígena por parte de bandeirantes e colonizadores para o trabalho escravo nas lavouras.
Com a chegada dos imigrantes europeus no século XIX e a criação oficial do município de Itajaí em 1860, a presença indígena na área urbana foi sendo invisibilizada pela expansão territorial e econômica da nova sociedade colonial.
O Resgate da Memória Ancestral
Resgatar a trajetória dos povos originários em Itajaí é um passo fundamental para compreender a formação social e cultural de toda a região do Vale do Itajaí. Marcas dessa presença permanecem vivas na toponímia local, na culinária tradicional à base de mandioca e frutos do mar, e no patrimônio arqueológico preservado pela comunidade científica.
A preservação e o debate sobre a história indígena no município reativam uma memória histórica essencial, lembrando que a prosperidade e o desenvolvimento atual de Itajaí assentam-se sobre territórios de profundas raízes ancestrais.






